Bittencourt

Mariana tinha aprendido que pessoas educadas só choram em shoppings centers por não conseguirem alcançar a tempo a cabine de vidro jateado do banheiro meio sujo, meio limpo ou o carro estacionado no corredor H13 laranja. Os motivos deveriam ser os mais trágicos possíveis. A morte de um parente justificaria um soluço na loja de sapatos. Morte de animais de estimação não. Era compreensível que alguém se encostasse na pilastra de mármore caso tivesse acabado de descobrir um câncer. Demissão nem pensar. Chorar em shopping center por perder emprego apontaria personalidade fraca, baixas expectativas em relação a si. A não ser que houvesse alguém doente na família, dependente do plano de saúde da empresa. Que situação horrível. Nesses casos até dava para entender, ensinava titia.

Agora, sentada na praça de alimentação, Mariana chorava sem se enquadrar em nenhum dos motivos tantas vezes antes enumerados. No prato à frente, remexia o montinho de arroz com ervas finas feito com a ajuda de uma xícara. Eram finas porque não tinham espessura, como um átomo fatiado. Quanto à xícara, já devem existir utensílios exclusivamente para esse fim. Da família dos descascadores de limão que não descascam maçãs, coisas compridas que retiram o miolo de um morango, objetos dobráveis de vaporizar legumes. Titia não. Titia fazia montinhos de arroz usando uma xícara de base reta, virando sobre o prato e dando três batidinhas com um talher. Era um aviso. Melhor ir logo, ela queria dizer ao arroz.

Da última vez em que saíram juntas, três meses antes de titia morrer, Mariana a levou para fazer compras. Ela achou tudo cafona, os funcionários sem educação e o lugar que Mariana encontrou para parar o carro ficava longe dos elevadores. Se dirigisse, as melhores vagas de estacionamento sempre se materializariam à sua frente, garantia a palestra que saia por entre os dentes velhos, metade brancos e metade amarelos por culpa do clareamento feito em casa, a baba peguenta acumulada na gengiva.

Mariana de lacinho na cabeça sem uma única pontinha amassada, aos quatro anos. Mariana de uniforme de esgrima com o melhor florete da equipe, aos dez — o sobrenome Bittencourt estampado no colete. Mariana de sapatinhos de boneca envernizados e perfume Cacharel na formatura do ensino fundamental, aos onze. Mariana no primeiro lugar do vestibular de medicina, aos dezoito. Mariana no jantar de noivado com o filho do prefeito, aos vinte e três. Titia já não andava, não comia sólidos, nem podia limpar a própria bunda, mas lembrava de cada fio de cabelo de Mariana que havia prendido com gel e fivelas para que a menina não tivesse arestas.

Uma vez, titia virou-se para Mariana, deu-lhe um tapa na cara e a proibiu de brincar com a vizinha da frente. Mas ela é a minha melhor amiga. Outro tapa. A mãe dela é uma vagabunda. Uma semana depois do tapa, a filha da vizinha foi expulsa da escola porque acharam o estojo importado de quatro compartimentos de Mariana dentro da mochilinha simples da menina. No mês seguinte, a casa em que a mãe, a vagabunda, e a filha, a ladra de estojos, moravam ganhou pichações com vários dos nomes que titia gostava de chamá-las.

Titia foi encontrada dura na cama, a boca torta, em uma manhã de segunda-feira. Mandaram chamar Mariana no plantão, que atendeu mais cinco pacientes e esperou pelo sexto, esse não apareceu, até resolver ir embora. Mudou de cidade sem avisar, terminou com o filho do prefeito por Facebook. Antes queimou todos os móveis em que titia havia tocado e quebrou a louça de mais de duzentos anos da família. Primeiro, atirou as xícaras de base reta na parede. Em seguida, abraçou a cristaleira de caviúna e a derrubou de uma só vez no assoalho. Nenhum dos empregados se interessou por qualquer item da mobília.

No dia em que remexia o montinho de arroz, Mariana não queria preparar o jantar. Encerrou o expediente de doze horas no hospital público e, em vez de seguir para casa, caminhou sozinha até o shopping com o cabelo desgrenhado, o jaleco sujo de sangue e pus. Pediu um prato sem qualquer significado e parou para ler no celular uma matéria com fotos restauradas de uma comunidade hippie. Uma mulher descansava em uma canga de praia estampada. Embaixo, a legenda contava: Helena Bittencourt abandonou a vida de luxo em Bauru para viver em comunidade. Era a primeira vez que via uma foto da mãe e que chorava em um shopping center.