Oito partidas de Candy Crush

Vanessa tinha vinte e dois, estudava medicina com bolsa integral em uma faculdade particular e era filha de Sandra, recepcionista e mãe solteira aos quarenta e um. As duas viviam em um apartamentinho de poucos cômodos e decoração setentista que o salário do consultório ortopédico não permitia melhorar. Compartilhavam o guarda-roupa, a cama de pés convexos e flores entalhadas na madeira, o gosto por café, as pizzas toda sexta à noite e, uma vez, o namorado. No início da faculdade de Vanessa, compartilharam também as aulas. Sandra assistia atenta a longas explicações sobre o sistema cardiorrespiratório, tirava dúvidas, tomava notas. Não demorou até receber da coordenação um convite para se retirar. Implorou com um sorriso carente, as mãos cruzadas em cima do peito, não iria incomodar, ninguém notaria sua presença, queria aprender. Desesperada, arrastou Vanessa até a frente da turma e, com as imagens do datashow sendo projetadas parte na parede branca, parte em suas testas e camisetas, fez a filha jurar que entregaria seu corpo para fins acadêmicos. Voltaria um dia, mesmo que morta.

Nos quatro semestres seguintes, Vanessa evitou as aulas de anatomia. Naquele dia, jogou oito partidas de Candy Crush sentada sobre os dois pés no chão do corredor antes de se convencer a empurrar a porta sanfonada do necrotério. Sessenta alunos impacientes estavam amontoados em volta de um tanque coberto, esperando o professor encontrar o assunto da aula. Mas era só o homenzinho puxar um pedaço de corpo humano do formol para tornar a enfiá-lo de volta. Erguia braços, afundava pernas, pescava cabeças. Vencido, ele seguiu para um tanque maior onde ficavam os cadáveres inteiros. Às vezes faltava um dedo ou um pé, mas ainda assim, inteiros. Içou um corpo cinza, um homem de meia-idade. Depois o deslizou até a mesa de metal, cortou os pontos porcamente dados por outro professor na barriga do defunto e iniciou a demonstração. No fundo da sala, três estudantes riam baixinho. Falavam sobre decepar o pau do cadáver. Pra quê roubar um pinto mole se o meu faz bem o serviço, dizia um que não pronunciava os erres. Será que ainda tem pelos no cu?, ouviu antes de sentir a bile na garganta e sair.

Pegou um ônibus azul, dos que dão a volta na cidade. Não queria explicar a razão de chegar cedo em casa, contar detalhadamente tudo o que aprendeu naquele dia, tirar as dúvidas óbvias de Sandra. O interesse da mãe irritava, preenchia todos os silêncios de descanso com perguntas eufóricas, manchava as pontas das páginas dos livros caros de cebola. O ônibus parou três quarteirões antes do ponto de sempre. Saltou e começou a se arrastar, os fones de ouvido desligados. Faltava cem metros até em casa quando viu uma mulher obesa de traços familiares correndo em sua direção. Ergueu os olhos para enxergar por trás da cabeça enorme da vizinha e viu um aglomerado um pouco menor que o da aula de anatomia cercando um caminhãozinho de mudanças. O coração, a adrenalina, a falta de ar, o gosto de mil chaves na boca. A mulher gorda explicou: o caminhão pegou sua mãe, passou por cima, ela atravessou sem olhar, morreu na hora. O corpo estava irreconhecível, não haveria velório, todo mundo já viu um sapo atropelado na estrada, sabe o que acontece. Vanessa lembrou dos meninos do necrotério, da água suja pontilhada por pedacinhos de vísceras do tanque, da ansiedade que sentia toda vez que o professor puxava uma cabeça. Pegou a vizinha pelo braço e fez um carinho nas costas de mulher. Foi melhor assim, disse a ela.