Asas de insetos

Entrou no carro devagar, sentando delicadamente no banco do motorista, a barra da saia aparada pela palma da mão durante o movimento, uma estratégia simples para não deixar o tecido embolar entre as coxas e o assento de couro. Respirou com calma duas vezes, uma respiração satisfeita, antes de perceber a alça da sandália presa na alavanca da cadeira. O coração disparou e, numa tentativa impensada de se soltar, arranhou o tornozelo deixando uma trilha de pequenos pedaços de pele levantados. Esfregou o dedo na superfície danificada, ignorando a dor até que todos os pedaços fossem removidos e o tornozelo voltasse a ficar liso, embora um pouco vermelho. Abalada, se olhou no retrovisor e se achou feia. Sentiu vergonha dos poros abertos, estava arrependida por não ter enfiado a cara numa bacia com gelo antes de sair de casa. Aceitou a derrota e colocou o retrovisor de volta ao seu lugar, depois mexeu mais um pouco, alinhando o espelho com as linhas do desembaçador do vidro de trás. 

Esperou por quarenta segundos até o relógio marcar três horas e saiu da garagem girando as rodas em um ângulo de sessenta graus para que o impacto da passagem pelo meio-fio fosse imperceptível. Dirigiu até a Praça do Entroncamento mantendo a velocidade constante de cinquenta por hora, o plano de pegar a onda verde da avenida saindo como previsto. Passou pelo primeiro sinal da Agamenon Magalhães deixando a Livraria Modelo para trás, não gostava da identidade visual do lugar, mas até que a construção era simpática. Perdeu o segundo sinal por culpa de um idiota em um Palio roxo desbotado, da época em que a marca da Fiat eram cinco traços paralelos. Percebeu que o cromado de um dos traços estava descascando, sentiu arrepios e, por culpa do deslize, fez contato visual com um trombadinha vestindo um uniforme furado do Colégio das Damas. Antes que o menino pudesse esguichar água suja do canal no vidro, puxou a direção e encostou o máximo possível no carro ao lado, os cabelos do pescoço eriçados com a tarefa não programada. 

Passou pelas duas pontes que levam até o centro da cidade num fluxo quase perfeito, não fosse o zíper da saia machucando as costas. O ar-condicionado deixava o nariz gelado, mas tudo bem, frio desincha e talvez até diminuísse os poros do rosto. Gostava de contornar o Teatro de Santa Isabel dirigindo, a curva bem planejada, não era preciso manter o pescoço duro para permanecer reta na cadeira. Cruzou a ponte Buarque de Macedo e entrou no Cais da Alfândega pela faixa do meio, uma sensação boa de equilíbrio atravessando os ouvidos. Buzinou para o motorista de ônibus que comprava amendoim de uma ambulante gorda e desproporcional. A gorda e o ônibus saíram do meio da rua e ela pode enxergar uma vaga na frente da Livraria Cultura, entre um Twingo azul e um Gol vermelho. O Twingo, tinha certeza, pertencia a alguém irresponsável, a posição em que estava estacionado, meio torto, a placa com a ponta amassada e as sacolas jogadas de qualquer jeito no tampo da mala. Considerando todos os riscos, fez a volta no posto de gasolina da esquina e entrou no estacionamento coberto. Subiu os três andares da ladeira em caracol sem conseguir manter uma distância equilibrada da parede. Culpou a tontura, única justificativa possível. 

Desceu até a livraria cujo letreiro agradava um pouco mais, mas não muito, e ficou decepcionada com a ferrugem que tomava conta das placas de metal da fachada. Dentro da loja, notou com satisfação que o ar-condicionado estava na mesma temperatura que a do carro. Só se sentiu mal ao pensar que todo mundo ali também tinha a vantagem de estar com o rosto desinchado. Girou o pescoço da esquerda para a direita e da direita para a esquerda até encontrar um vendedor. Saltitou impaciente na direção do rapaz de barba feita e pequenos pontos de sangue cobrindo as laterais das bochechas. Ele vestia uma camisa preta cheia de fiapos brancos, não sabia separar as roupas escuras das claras na máquina de lavar. Que preguiça de gente assim. Sentiu um cheiro úmido, de tecido seco à sombra e suspeitou que aquele homem não seria capaz de ajudá-la. Desacreditada, entregou um papel com o nome do livro e do autor, preferia assim. Detestava soletrar, algumas vezes chegou até a pedir licença para usar o teclado. Sabia como o software funcionava. Mas a técnica do papelzinho deu certo e em poucos minutos estava com o exemplar nas mãos. 

Voltou ao carro às quatro e quinze. Dirigiu até a Cidade Universitária pela BR101 tendo ataques de pânico ao cruzar com carroças, entrou no Centro de Artes e Comunicação fazendo zigue-zague entre as nuvens de fumaça e se permitiu deslizar no chão de vinil do prédio. Aproveitou que alguém saía da biblioteca e passou pela porta de vidro jateado sem precisar encostar na maçaneta redonda de madeira, as mãos erguidas como um médico prestes a entrar em cirurgia. Notou o armário sete ocupado e deixou suas coisas no de número cinco. Antes, tirou o exemplar recém-comprado da bolsa, tomando cuidado para não estragar as laterais. Aliviou a expressão das sobrancelhas, expandiu os pulmões e caminhou até a senhora do balcão. Entregou o livro intocado para a mulher que deu baixa no sistema sem se impressionar com o cheiro de papel novo. 

Retornou ao armário cinco com as pernas trêmulas de sucesso, devolveu a chave à recepcionista de cílios empelotados de rímel barato e, ao dar de cara com a porta fechada, abriu passagem com a ponta do pé. Saiu para o pátio repassando mentalmente movimentos de basquete vistos na TV, sacou da bolsa um Ziploc que continha a cópia usada da biblioteca e atirou o pacote no lixo mais próximo. Estava livre das páginas estufadas de água, cheias de areia, asas de insetos e manchas de café. Nunca mais emprestou uma borracha que fosse.